II Encontro de Genealogistas - 04.08.2007
Texto de Gustavo
Py Gomes da Silveira
Há pessoas que
têm o senso da oportunidade. Outras, por vezes, perdem as oportunidades. Em
nossa última reunião-almoço o Renato Franzen ficou no primeiro grupo e eu no
segundo. Quando Renato homenageou o nosso decano Paulo Juarez Pedroso Xavier,
eu pensei – mas não o fiz – em pedir a palavra e dar um depoimento sobre o
quanto era solícito desde sempre o nosso Paulo Xavier, com as pessoas
interessadas na área de história e de genealogia, inclusive comigo, então um
guri de 12 anos de idade. Não o fiz e, menos de um mês após, eu estava no seu
velório. A iniciativa do Renato tornou-se a última homenagem ao patrono nosso,
cuja plena lucidez foi comprovada nas belas palavras que pronunciou na ocasião.
Foi-me pedido
para falar sobre o início da minha dedicação a assuntos genealógicos. E tudo
começou quando, aos 11 anos, descobri em casa um Almanaque Hachette, publicação
anual francesa, de meu avô, mas que estava com meu pai porque era de 1913, ano
do seu nascimento. Ali havia uma pequena árvore genealógica, preenchida por meu
pai, onde fiz a descoberta dos nomes e, pois, da existência real de meus
bisavós paternos.
Despertado o
interesse, iniciei minhas primeiras pesquisas e recebi meus primeiros auxílios:
de Francisco (Chico) Salles sobre a genealogia do planalto médio. De Jorge
Godofredo Felizardo sobre a genealogia açoriana. De Paulo Xavier o acesso ao
Arquivo Público. E surgiram novos auxílios e novos amigos: Cônego José Alberto
Colling (no arquivo da Cúria de Porto Alegre), Paulo Annes Gonçalves, Manoelito
de Ornellas, José de Araújo Fabrício. Um vínculo familiar surgiu com João Pinto
da Fonseca Guimarães, então já falecido, meu tio-avô político (casado com uma
tia avó materna e madrinha de batismo). Fiz novos amigos paulistas, como
Salvador de Moya (do Instituto Genealógico Brasileiro) e Luiz Carlos Sampaio de
Mendonça (de Santos). E cariocas, como Carlos Grandmasson Rheingantz e Rui
Vieira da Cunha (do Colégio Brasileiro de Genealogia). Na época fui o mais
jovem genealogista do Rio Grande do Sul, talvez até do Brasil. E, do jeito que
as coisas vão, vou me tornar, com o tempo, o mais antigo dos genealogistas.
A genealogia
há 50 anos atrás era muito diferente. Podem não acreditar, mas não existia
Internet, nem registros microfilmados da Igreja Mórman, nem máquinas
fotográficas digitais, nem mesmo fax ou xerox, e o Sérgio Buratto não tinha
ainda criado o RS-Gen. Os contatos eram pessoais, ao vivo ou por carta. Estive
em São Paulo, no Rio de Janeiro, pesquisei nas Cúrias de Porto Alegre, de
Pelotas, de Santa Maria, de Bagé, de Rio Grande. Cheguei a pesquisar nos
Arquivos Nacionais em Paris, dirigido pelo Barão Jacques Meurgey de Tupigny.
Meus primeiros
trabalhos publicados foram a Genealogia da Família Silveira (na Revista Genealógica
Latina, em 1956, aos 14 anos) e a História Genealógica da Família Py (na
Revista do Museu Júlio de Castilhos e Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul,
em 1957, aos 15 anos).
Meu ingresso
como Sócio do Instituto de Estudos Genealógicos do Rio Grande do Sul foi
curioso: houve duas eleições: a primeira para decidir se, na minha idade (13
anos), eu poderia ser admitido como sócio; a segunda para a efetiva admissão –
contada a história pelo Thomaz Duarte, secretário do Instituto Histórico, onde
funcionava o Instituto Genealógico, pai do atual secretário Miguel Duarte, que
torcia por mim. A seguir entrei para o Instituto Genealógico Brasileiro, para o
Colégio Brasileiro de Genealogia, e fundei, no Colégio Estadual Júlio de
Castilhos, um Instituto Genealógico com seis sócios e que publicou dois números
de um Boletim Genealógico e que titulou quatro sócios honorários, entre os
quais Paulo Xavier.
Algum tempo
depois entrei num período de stand by:
o ingresso na Faculdade de Medicina que exige tempo integral e dedicação
praticamente exclusiva, reduziu minhas pesquisas. Mas sem perder o interesse e
o contato com os temas genealógicos e guardando cuidadosamente os meus
arquivos.
Estabilizado
profissionalmente começou, no final da década de 80, um retorno à genealogia,
associando-me no Instituto Genealógico do Rio Grande do Sul, com novas amizades
genealógicas, como Moacyr Domingues, o primo Alexandre Linck, o também primo
Tarcisio Taborda, o re-encontro com Paulo Xavier, mais adiante com Santa Inèze,
com Werner Dullius, Renato Franzen e Vera Lúcia Barroso. E todos os atuais
companheiros do INGERS e da RS-Gen, que não citarei nominalmente. Mas quero
lembrar os amigos mais distantes (e também primos distantes) Nelson Jorge, Roni
Vasconcellos, João Simões Lopes e Martin Romano, e ainda o mendocino (ainda não
primo) Alfredo “Chango” Garcia da Rosa
Com Nelson Jorge e Roni Vasconcellos fizemos uma memorável viagem aos
Açores, em 2005, com direito a pesquisar nos arquivos distritais da ilha
Terceira e do Faial, recepcionados
cavalheirescamente pelo Helder de Oliveira.
Depois de
tantos anos tenho bem clara a importância da Genealogia. Ela é citada como
ciência auxiliar da história e, se formos pensar com cuidado, muitos fatos
históricos foram determinados a partir de ligações familiares que só a
Genealogia consegue identificar e, só então conseguimos chegar ao pleno
entendimento da história. E a Genealogia também é um excelente meio de se
conhecer pessoas interessantes as quais, sem tirar os olhos do presente e
estando atentos ao futuro, estudam e conhecem o passado dos povos através de
seus protagonistas especiais: os homens e as mulheres comuns. Uma história
livre das fantasias que, por vezes, os historiadores constroem para os heróis e
os dominantes nas respectivas eras. Nós, genealogistas, precisamos manter clara
essa nossa visão particular sobre o viver de nossos ancestrais.