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A Paleografia pode ser
definida tanto como escritos antigos, ou o estudo de escritos antigos.
Qualquer pessoa empenhada em pesquisas genealógicas de registros
portugueses antigos, necessitará de saber ler, entender e transcrever tais
registros.
A capacidade de ler
e escrever paleografia exige duas habilidades importantes: (1) saber
transpor os caracteres do documento original para caracteres com os quais
estamos mais familiarizados, e (2) saber identificar as abreviações usadas
no texto do registro.
Além dessas duas habilidades mais
importantes devemos também ser capazes de interpretar os sinais de
pontuação usados, separar ou unir palavras que não foram separadas ou
unidas no texto original, ler e transcrever números, identificar erros no
texto original e, finalmente, obter, através de tudo isso, o significado
do texto.
É claro que cada pessoa tem um
estilo ou método de escrever, o qual é único. No entanto, tem sido
possível, no correr da história, reunir em grupos ou estilos definidos,
muitos desses métodos individuais de escrita. Tais estilos podem variar de
época a época, de país a país, e até mesmo entre tipos diferentes de
documentos. Entretanto, uma vez que se tenha aprendido as características
especiais de qualquer estilo, deveríamos ser capazes de ler qualquer
documento escrito naquele estilo, usando para isso, de um esforço apenas
ligeiramente maior do requerido para ler os atuais estilos de caligrafia.
Naturalmente, teríamos que lidar com variações daquele estilo, má
caligrafia, tinta desbotada etc. Mas o segredo de poder ler qualquer
estilo determinado de caligrafia é simplesmente ser capaz de reconhecer as
características daquele estilo.
Os estilos típicos da Ibéria e
Ibero-América se originaram do alfabeto romano, usado desde pouco tempo
antes época de Cristo. No início, tal alfabeto consistia de 21 letras: A,
B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V e X. As letras Y e
Z foram adicionadas aproximadamente em 50 A.C. Desde aquele tempo tem
havido muitos estilos diferentes, ou modificações de estilos que foram
adotados, rejeitados, modificados e remodificados. Esses estilos foram
agrupados e classificados e incluem, entre outros, a caligrafia Carolínea,
resultante de uma reforma introduzida durante o reinado de Carlos Magno, a
caligrafia Gótica, a caligrafia Cortesa, a caligrafia Secretária e a
caligrafia Secretária Encadeada.
Devemos chamar a atenção para o
fato de que como em muitas outras disciplinas, a categorização pode ser
perigosa. É conveniente que sejamos capazes de classificar esses vários
estilos em grupos e dar-lhes nomes e títulos. Entretanto, logo que se cria
uma categoria ou um grupo, automaticamente surgem dúvidas quanto a se um
estilo pertence a este ou àquele grupo, ou se está em algum lugar no meio.
Como Eduardo Nunes explica: "A classificação das letras é um rito sagrado,
mas ao qual, atualmente todos os paleógrafos desejariam poder furtar-se
... ; porque, tanto a terminologia (base da classificação), como a própria
metodologia (postulado da terminologia) se encontram em plena crise de
refundição. " (Nunes, Eduardo, Álbum de Paleografia Portuguesa, Vol.
1, Lisboa, Portugal: Instituto de Alta Cultura, Universidade de
Lisboa, 1969, p. 11.) As categorias, no entanto, são convenientes e por
essa razão são e continuarão a ser usadas.
Uma vez que a maioria dos
registros de valor genealógico na Ibéria e Ibero-América, não foram
iniciados até o princípio do século XVI, somente os estilos predominantes
usados desde aquele tempo nos interessam. Nesses estão incluídas a
caligrafia Secretária, a caligrafia Secretária Encadeada e a Itálica, as
quais são brevemente descritas nas passagens que se seguem.
A Escrita Processual e Encadeada
"A escrita processual é
eminentemente cursiva, permitindo dessa forma aos escreventes, grande
liberdade no traçado. Como conseqüência, surgiu a degeneração da letra,
sendo difícil encontrar, em toda a paleografia latina e suas aplicações
nas línguas vernáculas, uma escrita com tantas formas divergentes como o é
a processual. À primeira vista, os variados manuscritos examinados por
pessoas que não estão a par do traçado da escrita processual, podem levar
à conclusão de que se trata de vários tipos de escritas. O motivo para
tal, é que os tipos de caligrafia processual oscilam entre os parecidos à
cortesa, que ainda mantém algumas das formas anglicanas herdadas da gótica
cursiva - da qual se originou - até os extremamente redondos da caligrafia
encadeada, sendo esta a última degeneração do ciclo - cortesa - processual
e encadeada. " (Aurélio Tanodi - Interpretação Paleográfica de Nomes
Indígenas, Córdoba, Argentina: Editor, 1965, p. 38.)
A Escrita Itálica ou Bastarda
"O ensino sistemático constitui
uma das principais características da escrita bastarda . - - Os calígrafos
do século XVII e anos posteriores, seguiam a escrita itálica ou bastarda,
porém, com pequenas modificações. Os escreventes tiveram então exemplos
calígrafos aos quais podiam recorrer e o ensino dispunha de bons manuais.
Apesar do ensino sistemático e dos
exemplos caligráficos, nem todos aderiram extremamente à formação
caligráfica. Havia pessoas que aprendiam a escrever sem haver tomado
cursos especiais, isto é, sem passar por um aprendizado sistemático.
Outras, embora o fizessem, degeneravam sua escrita pessoal, afastando-se
dos preceitos caligráficos, devido a ser a caligrafia bastarda um tipo de
escrita cursiva usada para uma grande variedade de manuscritos. Dessa
forma, encontramos na mesma região e época, manuscritos de diversos
aspectos - desde os altamente caligráficos até os extremamente
descuidados. Isso dependia de muitos fatores: a perícia gráfica do
aprendizado, a intenção com que se confeccionava o manuscrito, a
importância do mesmo, o aspecto externo e sua composição interna, etc.
Em geral, a escrita bastarda é
muito mais clara e legível do que a processual ou a encadeada; não
obstante, existem textos que apresentam sérias dificuldades e requerem
estudo especial." (Aurélio Tanodi, idem, p. 40.)
Introdução
Cada pessoa tem um método único de escrita. Esses
vários métodos podem ser agrupados em estilos. Estilos variam de época
para época, de país para país, e podem variar até mesmo de um tipo de
documento para outro. Os estilos utilizados em séculos atrás podem variar
tanto daqueles que usamos atualmente que se toma difícil lê-los. O estudo
de estilos de escrita e a ciência da interpretação e da compreensão de
documentos antigos é chamado de paleografia.
Há Dois Grandes Desafios na Paleografia
Dois grandes desafios envolvidos
na leitura e na transcrição de caligrafia antiga são:
1) ser capaz de transcrever as letras e os
números do documento original para um estilo com o qual você esteja mais
familiarizado;
2) ser capaz de identificar as abreviaturas usadas no texto do registro.
Além desses dois desafios você
deve ser capaz de (l) interpretar os sinais de pontuação usados; (2)
separar ou unir palavras que não estejam separadas ou unidas no texto
original; (3) ler e transcrever números; (4) identificar palavras que são
escritas de maneira diferente da que seriam em português moderno; (5)
identificar erros no texto original, e (6) determinar o significado de
termos não familiares ou arcaicos.
Cada um desses desafios será
abordado nesta apostila.
A intenção desta apostila é a de
servir como introdução à paleografia portuguesa. Estude o material por
completo e ele o capacitará a começar a pesquisa genealógica; de outra
forma, será difícil ler os registros. Se você tiver interesse ou
necessidade de tornar-se mais experiente na sua habilidade em ler
registros antigos, há uma bibliografia anotada no final desta apostila.
Você deve usá-la para continuar seus estudos. Há, entretanto, apenas uma
maneira de tornar-se perito em ler e transcrever documentos portugueses
antigos, e é através da prática. Estão incluídos nesta apostila textos
para praticar. Use-os, e quando você os tiver dominado, pratique usando
outros textos originais. Se você persistir, logo será capaz de ler
qualquer documento português antigo.
Notas Históricas
A Língua Portuguesa É uma Língua Latina
Os estilos de escrita encontrados em Portugal e no
Brasil têm sua origem no alfabeto romano. Os romanos ocuparam a península
ibérica (Espanha e Portugal) aproximadamente do século III A.C. até a
queda do Império Romano o século V D.C.. É claro que outros grupos, além
dos romanos, contribuíram para a formação da língua portuguesa.
Originalmente a península ibérica foi habitada por um grupo de pessoas
conhecidas como Celta-Ibéricos. Esse povo foi conquistado pelos romanos.
Depois dos romanos vieram as tribos germânicas e depois os mouros, os
quaís deixaram evidência de seus costumes, não apenas na linguagem, mas
também na cultura dos Ibéricos. Todavia, a despeito dessa influência, a
língua portuguesa permaneceu sendo uma língua latina, e é principalmente
aos romanos que ela deve sua origem.
Existem Poucos Registros de Valor
Genealógico Datados de Antes de 1500.
Lá pelo século XII os portugueses declararam seu país
reino e lá pelo século XIII eles expulsaram os mouros e estenderam suas
fronteiras até sua atual localização.
Registros têm sido conservados desde a formação do
reino de Portugal. Entretanto, umas poucas evidências restaram daquele
remoto período. Foi a partir do século XVI que os padres paroquiais da
igreja católica foram solicitados a começar a registrar batismos,
casamenos e falecimentos. Esses decididamente são os registros
genealógicos mais valiosos em Portugal e no Brasil. Duante o século XVI
outros tipos de registros de valor genealógico também começaram a
proliferar. Por essa razão esa apostila não só tratará dos estilos de
escrita usados anes de 1500, como também dos estilos pós-1500 encontrados
em registros de valor genealógico. Para uma descrição completa deles
consulte "Registros de Valor Genealógico em Portugal" (série __ n.º __ ) e
"Registros de Valor Genealógico no Brasil" (série __ n.º __ ) ambos
publicados pelo Departamento Genealógíco.
Tradicionalmente, a Escrita Foi
Classificada em Estilos.
Desde que a paleografia é considerada uma ciência,
métodos individuais de escrita têm sido agrupados em estilos. Algumas
vezes é conveniente fazer isso e dar nomes a esses estilos. Eles incluem,
entre outros, a caligrafia carolínea, a gótica, a cortesa, a secretária, a
secretária encadeada e a itálica. Se você está para se tomar um perito na
leitura de registros de todos os períodos, será necessário um conhecimento
de cada um desses estilos. Todavia, assim como com muitas disciplinas, a
categorizaçào pode ser perigosa. Automaticamente surgem perguntas do tipo
"se certos estilos pertencem a um grupo ou a outro ou a algum entre eles".
Como Eduardo Nunes explica: "A classificação das
letras é um rito sagrado, mas do qual, atualmente, todos os paleógrafos
desejariam poder furtar-se; ... porque, tanto a terminologia (base da
classificação) como a própria metodologia (postulado da terminologia) se
encontram em plena crise da refundição. " (Nunes, Eduardo - Álbum de
Paleografia Portuguesa, Vol. 1, Lisboa, Portugal: Instituto de Alta
Cultura, Universidade de Lisboa, 1969, p. 11.)
Por ser esse o caso, e como a maioria dos registros
de valor genealógico no Brasil e em Portugal surgem apenas a partir de
1550 (quando um ou dois estilos predominaram sobre os outros), esta
apostila não procurará identificar o estilo usado em cada documento. Ao
invés disso, você estudará as técnicas e os métodos usados necessários
para se tornar familiarizado com qualquer estilo. Depois, utilizando-se
dessas técnicas, poderá adquirir as habílidades básicas necessárias para
ler e transcrever a maioria dos registros usados na pesquisa genealógica
portuguesa.
Alfabeto
O Alfabeto Permaneceu Virtualmente Inalterado
Originalmente o alfabeto romano era constituído de 21
letras: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, V e X.
Aproximadamente em 50 A. C. foram adicionadas as letras Y e Z. Desde
aquela época tem havido muitas mudanças nas línguas latinas e na maneira
de escrevê-las, mas o alfabeto, com poucas exceções, permaneceu
inalterado. Por essa razão, uma vez que você tenha aprendido as
características únicas de qualquer estilo de escrita e supondo que você
esteja familiarizado com o vocabulário e com a gramática usados na época
da escrita, você deverá ser capaz de ler qualquer documento escrito
naquele estilo, com um esforço levemente maior do que levaria para ler os
estilos de escrita de hoje.
É claro que você ainda assim terá que lidar com má
grafia, tinta borrada e falta de informação. A chave, porém, é ser capaz
de reconhecer as características do estilo usadas pela pessoa que escreveu
o documento.
Quase todos os exemplos seguintes de letras
foram tirados diretamente dos exemplos de textos usados nesta apostila.
Houve, é claro, muitos outros estilos pessoais usados por milhares de
escribas através do curso de quatro ou cinco séculos. Aprender todos
levaria uma vida inteira. Esses exemplos devem ajudar a dar uma idéia de
algumas das muitas variações. Estude-os cuidadosamente e recorra a esta
seção frequentemente enquanto você pratica o restante da apostila. À
medida que você continuar seu estudo de paleografía ou quando você começar
sua pesquisa em registros originais, será bom adicionar a essa lista
amostras de letras que provaram ser especialmente difíceis para você.
Dessa maneira você estará compilando seu estoque particular de letras, ao
qual desejará recorrer.
Você também poderá vir a desejar praticar a
escrita de algumas das letras que são difíceis para você transcrever. Isso
pode ser feito numa folha de papel separada. Essa também é uma boa idéia
quando se encontra uma combinação de letras que lhe seja nova ou estranha.
Escrevendo as letras você entenderá melhor o estilo do escriba e se
recordará dele por mais tempo. |